sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Tucunaré do conhecimento: notas sobre EAD e Ensino Presencial.



Eita peixão bravo!

Um de meus interesses mais recentes tem sido a Educação à Distância, popularmente tratada pela sigla EAD. No início desse ano, ingressei no curso de Licenciatura em Artes Visuais oferecido pela Universidade Aberta do Brasil (UAB) em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Meu intuito era me aproximar da área de educação e conquistar o grau da Licenciatura – pois sou “apenas” bacharela, ainda. Optei pelas Artes Visuais pela proximidade que meu trabalho performático vem tendo com essa área – além do que, imaginem só estudar tantas coisinhas de teatro de novo, visto que o aproveitamento de disciplinas não é tão facilmente conquistado...

Enfim, estou lá eu, discente da Licenciatura. A priori, discente descrente, conforme o senso-comum em nosso país, da verdadeira capacidade formativa dos processos de EAD. Alguns amigos, com orientações políticas mais voltadas à “antiga esquerda”, criticavam meu ingresso nesse universo e me diziam que a Educação à Distância viera para esculhambar definitivamente o coreto de nossa educação de nível superior.

(Pela ótica dos mesmos colegas, eu seria uma dupla-criminosa: partidária da Educação à Distância e ainda professora de um curso do REUNI!).

Enfim, esculhambar por que? Oras, diz meu amigo, se você solicita a um aluno que leia um texto para a discussão em sala de aula e esse aluno, quando lê o texto, em geral não possui as competências elementares para interpretá-lo – de modo que é o que pode acabar-se fazendo por ele (considerando que isso seja possível) em sala - como pode-se acreditar que o mesmo aluno vá aprender algo prescindindo da segunda parte desse processo?

Elementar, meu caro Fulano. Eis aí a comparação irrealizável. O embate impossível. Como diria o bom e velho tiozinho da padaria: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
A Educação à Distância não pretende superar ou substituir o ensino presencial - a primeira não quer nem vai “acabar” com o segundo. Lembremos agora “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e a relação fotografia-pintura/cinema-teatro: a fotografia não matou a pintura, muito pelo contrário: ampliou seus horizontes, abriu-lhe novos caminhos e inclusive possibilitou-lhe que corresse atrás daquilo que lhe era mais fundamental e peculiar, essencial. Vamos explicitar isso ainda mais através da relação cinema-teatro: na medida em que a câmera possibilita grande fidelidade ao tempo e espaço de um acontecimento, possibilita também ao teatro que se debruce sobre sua questão mais peculiar, mais íntima, mais própria: o compartilhamento de presença. Ok, demorou horrores pra isso começar a acontecer, mas estamos aí.

Por isso, acredito na Educação à Distância como um “momento” de pararmos e olharmos para a Educação, “e” maiúsculo, em geral. Em suas propostas metodológicas, em seus fundamentos conceituais, no deslocamento do foco do professor-mestre-detentor-do-saber (que está aí SIM, no ensino Básico como no Superior, e reforça a cada dia o hábito do depositarismo, tanto por parte do docente quanto do discente) para o aluno colaborador, pró-ativo (primeira vez na vida que uso essa palavra e não a acho nojenta), que compartilha saberes (como faz todo dia pelo facebook) e opera pela construção de conhecimentos coletivamente, auxiliado por um mediador que trabalha o tempo todo para que ele possa vir a construir essa autonomia.

Voltando ao caso do amigo Fulano: em EAD, o aluno que não lê o texto, não vê a matéria. Não pode realizar nenhuma atividade. Ele não tem a possibilidade de sentar-se na sala de aula e ouvir o que o professor-mestre-detentor-do-saber tem a dizer sobre aquilo, ou de acompanhar, como ouvinte, o debate promovido pelos seus colegas que leram o texto. Do outro lado da tela, em algum lugar do mundo, há um tutor olhando por ele e bolando estratégias para que possa compreender à sua maneira o conteúdo. O aluno que não leu o texto não será avaliado por aquele módulo, e não poderá “passar de ano” escrevendo, ao fim do semestre, um texto sobre o único texto que ele leu.

Ok, eu forcei a barra no “case” acima pra podermos entender um pouquinho mais sobre a EAD.

O fato é que esse primeiro contato, como discente, com EAD me fez repensar radicalmente a minha atividade como professora das salas de aula presenciais. Quantas vezes, ou, em determinada vez em que intensidade não trabalhei de fato para que os alunos construíssem seu conhecimento, e apenas dei-lhes um anzolzinho, uma minhoca e falei: tá ali o Rio Tocantins, bem. Agora você bota essa minhoca nesse anzol, joga lá e espera, bem quietinho. O habilidoso jogou no google, descobriu o melhor horário para a prática da pesca daquele peixe que seria o mais provável de se pescar tendo minhocas como isca ou, ainda, querendo pescar um Tucunaré, pesquisou a melhor forma de fazê-lo. O esforçado penou um pouco, mas logo também se lembrou do oráculo, ou se lembrou de repente de que tinha um vizinho pescador, deu uma consultada, conseguiu conquistar seu lambarizinho, com a sua minhoquinha mesmo. E o terceiro? O terceiro torrou o côco no sol de Palmas, até sua minhoca ficar esturricada e sua paciência e auto-estima tão desidratadas quanto o resto do seu corpo. Culpa dele, o loser?



Manuais? Não, não existem manuais quando se trata de pessoas ensinando/aprendendo.

Culpa minha? Culpa do sistema? O que não podemos negar é que os alunos nos chegam a cada dia mais tendendo à morte por inanição no barranco da beira do rio. O que faremos? Faremos tudo por eles (dando o peixe)? Ou vamos fingir que não é com a gente, não vamos “abaixar o nível” de nossas aulas e vamos continuar vendo 5, 6 alunos entre 80 (é, uma sala de REUNI por aqui tem 80 alunos) voltando pra sala com seus peixes.

Se existe mesmo, conforme a minha tese, algo que o ensino presencial pode aprender com a EAD, esse algo são boas e novas maneiras de ensinar a pescar – ou, melhor ainda, de auxiliar nosso alunado a encontrar os caminhos para fisgar o peixe que ele tanto deseja.

Deseja? Não, ele não deseja! Ele não quer peixe nenhum! Tem peixe pra comprar no Extra, tia! Eu gosto de carne vermelha, de churrasco! Tem peiche* (sic) fresco no Google, pescar pra quê? (Essa me lembrou essa música aqui).

Resgatando, então: auxiliar os alunos a desejarem o peixe e, em desejando-o, orientá-los a descobrir como fisgar o bichinho. Como aluna de um curso em EAD, olho para as atividades (numerosas, e extensivas!) que tenho realizado dentro das disciplinas e é isso o que vejo. É o que busco, hoje, levar para a minha sala de aula.

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