Segue um trecho de Suely Rolnik, extraído do texto "Uma terapêutica para tempos desprovidos de poesia", que pode ser encontrado aqui. O artigo comenta a obra de Lygia Clark, mais especificamente a sua última fase, intitulada pela artista como "Estruturação do Self".

Uma sessão da "Estruturação do self"
"A criação é este impulso que responde à necessidade de inventar uma forma de expressão para aquilo que o corpo escuta da realidade enquanto campo de forças. Incorporando-se ao corpo como sensações, tais forças acabam por pressioná-lo para que as exteriorize. As formas assim criadas – sejam elas verbais, gestuais, plásticas, musicais ou outras quaisquer – são pois secreções deste corpo, como o sugere Fédida a respeito das palavras. Mais precisamente, elas são secreções de suas micropercepções. Elas interferem no entorno, na medida em que fazem surgir “possíveis” até então insuspeitáveis. É nestas circunstâncias que elas se fazem acontecimentos, mudança de paisagem, criação cultural (...)
Porém, chegar a isto não é tão óbvio: entre os dois regimes possíveis de exercício do sensível – conectar-se com o mundo enquanto diagrama de forças ou enquanto cartografia de formas – existe uma disparidade irredutível. É a tensão deste paradoxo entre micro e macrosensorialidade que dá o impulso à potência criadora. Mas, para que esta aconteça, é preciso habitar este paradoxo, ou seja viver simultaneamente as duas escalas do sensível."

"Máscaras abismo"
Através da transcrição de algumas passagens de diários de bordo de Lygia, onde ela anotava suas impressões sobre cada sessão, aliadas à análise repleta qualidades poéticas de Suely, esse texto foi a grande experiência intelectual de 2009.
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