“Começo [autobiografia]” é o primeiro livro da escritora e performer francesa Nathalie Quintane publicado no Brasil. Publicado pela editora Cosac e Naify em 2004, mesmo ano do lançamento da sua versão original em língua francesa, tem cuidadosa tradução da poeta e professora da Universidade Federal Fluminense Paula Glenadel.
A escrita de Quintane é bastante peculiar. Numa folheada rápida das páginas do livro já percebemos que não se trata de uma obra conservadora: frases curtas e rimas entrelaçadas misturam-se com grandes blocos de texto, por vezes não pontuado; uma pequena narrativa segue-se por uma palavra que, em negrito e fonte imensa, ocupa sozinha duas páginas. É um texto híbrido de gêneros textuais: poesia em prosa, prosa em poema, poesia visual, tudo se entrelaçando para nos contar a história da juventude da autora.
Essa hibridização, aqui, é um recurso usado para imprimir à leitura um ritmo de palavra falada, e mais ainda, de palavra vivida, dotando o texto de uma forte presença do autor. As rupturas proporcionadas pelo intercalar de gêneros, por serem operadas com tranquilidade e sem pretensão, revelam um fluxo de vida e pensamento e, assim, a escrita vai-se construindo frente ao leitor como se este fosse um ouvinte.
Acredito que essa característica deva-se em parte ao fato de a poeta atuar por entre os campos da performance e da poesia. Assim como na performance o corpo apresenta-se enquanto manifestação da subjetividade do performer em atividade no espaço-tempo real, na escrita a palavra em movimento coloca-se como representante de uma voz viva.
Nathalie Quintane
“Começo” compõe através de seus poemas uma narrativa: a autobiografia juvenil da autora, desde a infância até o ingresso no mercado de trabalho. A presença de elementos ordinários da existência cotidiana, como o cozinhar, o urinar e o fazer compras, mesclados a um alto nível de lirismo, dão o tom da poesia de Quintane, que revela-se uma vivente dedicada a encontrar belezas onde quer que els estejam.
Ao mesmo tempo, porém, essa “grandificação” das coisas ordinárias mostra ao leitor a pequenez de sua condição de humano:
“Pequeno(a) 2. Eczema
Nos cotovelos, atrás dos joelhos, até às faces ascendendo, das minhas ancestrais à minha mãe via minhas avós e minhas tias.”
“Entretanto, quando o ar volta, uma vez engolido o ovo, uma vez moída na garganta a cenoura, uma vez descida a fruta macia, uma vez a ervilha, pequena, chegada ao tórax imóvel, o gosto do ovo retorna, e dos outros, bastante poderosos para que seja preciso afogá-los em água.
Uma hora e mais o ovo fica.”
A ironia é parte fundamental desse jogo entre o banal e o sofisticado. Para fundamentar a construção desse tom, Quintane utiliza-se do uso seqüencial de termos do cotidiano, acompanhados de expressões próprias à linguagem poética, construindo, dessa maneira, imagens que pendem entre o sublime e o grotesco:
“Abri a boca. A geléia já tinha embebido longamente o pão, tanto que ela não escorria mais em veios vermelhos, mas impregnava as bolas densas do miolo com manchas rosadas”.
Apesar do retrato do cotidiano e da apresentação do discurso como fala, o texto se afasta de um possível simplismo pelo trabalho com a língua e suas estruturas, em especial com jogos sintáxicos. Arrisco falar que Quintane cria imagens da línguagem, visto que seus jogos nos levam a debruçarmo-nos sobre nosso falar.
“Com doze anos a chamaram de Barjavel (ela lia Barjavel).
O cão do clube dos cinco se chama Dagoberto.
O colégio se chama Gustave Courbet ou Berthe Morisoth.
Como aprender o nome das plantas se não as reconhecemos nas fotos”.
Nessa passagem, a reflexão sobre a denominação das coisas que a cercam suscita no leitor a necessidade de olhar e enxergar os nomes, que não são coisas, e de olhar e enxergar as coisas, que não são nomes. Traz o abstrato e, então, a necessidade de concretizá-lo em algo que não é aquilo que ele nomeia. Traz, portanto, a necessidade de colocar-se frente às questões de linguagem.