domingo, 25 de outubro de 2009

Learning to love You More - Miranda July e Harrell Fletcher


"Learning to Love You More" é um trabalho participativo web-based realizado pela multiartista americana Miranda July em parceria com Harrell Fletcher. Entre o início de 2002 e maio de 2009, os artistas publicaram no site do projeto (desenvolvido por Yuri Ono) setenta assignments, tarefinhas direcionadas às pessoas comuns do outro lado da rede, que aceitando as tarefas tornavam-se participantes. Como participante, o pessoal tinha que levar a cabo a atividade proposta e enviar para o site um material-resposta, uma fotografia, um texto, um vídeo, coisas do gênero. Esse material era publicado no site, onde ainda está disponível, e alguns trabalhos selecionados participavam das diversas exposições realizadas pelo projeto em espaços como The Whitney Museum, Rhodes College, Aurora Picture Show, entre outros. Mais de 8.000 pessoas contribuíram com o projeto.

Os assignments são tarefas geralmente simples, porém bastante específicas. São como instruções que têm o objetivo de conduzir o participante POR uma experiência individual através da realização das ações. Tratam de temas como a memória, a família, a infância, auto-estima... Pequenas receitas para amar mais a si mesmo.

Alguma semelhança com as Atividades, de Kaprow? Opa, muitas. Eu diria mesmo que trata-se de uma contemporaneização (heins?!) muito bem feita da obra dele. Não vi em nenhum momento os artistas citando diretamente Allan, porém há de se notar uma coisa: Miranda é natural de Berkeley, mesma cidade em que Kaprow produziu grande parte da sua obra participativa nos anos 70.

É muito próximo também dos meus Jogos De Fazer, um trabalho sobre o qual nunca falei aqui, mas prometo fazê-lo em breve!

Uma citação muito bacana retirada do site, que fala lindamente sobre Learning to Love You More:

"A melhor arte e a melhor literatura são quase como atribuições (assignments); são tão vibrantes que você se sente compelido a fazer alguma coisa em resposta. Repentinamente, fica claro o que você tem que fazer. Por um breve momento, parece maravilhosamente fácil viver e amar e criar coisas magníficas (...) Em certo sentido, essas coisas são atribuições - da mesma forma que o mar dá a atribuição de respirar profundamente, e beijar nos instrui a parar de pensar."
Eu concordo em gênero, número e grau! Vamos ver um assignments e as respostas enviadas pelos participantes?


Tarefa nº16:
Faça uma réplica de papel da sua cama Utilizando papel, papelão, lápis de cor, cola e/ou fita adesiva, faça réplicas de seus lençóis, cobertores, edredons, travesseiros e tudo o mais que dispõe sua cama. Então, reúna-os da maneira como você arruma sua cama. A cama pronta deve ter aproximadamente o comprimento de um lápis. Tome especial cuidado de reproduzir os padrões de tecido e todas as manchas ou quaisquer outras irregularidades.

Documentação:
Tire uma foto dos elementos da cama arranjados separadamente e uma outra fotografia da cama montada.


Essa é a imagem feita pelos artistas.


Colaboração de Christopher Huxley, Manchester UK.


Colaboração de Rose Rossum, Copenhagen, Dinamarca.


No mais, recomendo que dêem uma passada pelo site e vejam com atenção cada um dos itens, vale muito a pena. É legal olhar o site de Miranda também, fonte infindável de trabalhos sensíveis e supercontemporâneos (hehe).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mais duas Atividades de Allan Kaprow - e o que Zen tem a ver com isso.

Kaprow e uma participante em "Just Doing", mais uma Atividade baseada nos princípios Zen.


As Atividades (Activities) que seguem abaixo foram roteirizadas e realizadas pela primeira vez em 1976 e 1995, respectivamente. As duas evidenciam uma grande influência da obra de Kaprow: a filosofia e a prática do Zen.

Os anos 50, anos da formação de Kaprow, foram palco de uma grande explosão Zen nos Estados Unidos. Kaprow entrou em contato com ele através de John Cage, que apoiou o boom disseminando suas idéias sobre Zen pelas universidades de todo o país. Cage, por sua vez, bebeu primordialmente em D. T. Suzuki, responsável pela popularização do Zen na américa ainda no final do século XIX. Trata-se, portanto de um Zen "à americana", pragmático e não monástico, focado nas questões da vida moderna local.

Daí que, deixada de lado a questão da transcendência, este Zen ressalta a questão da experiência, do viver o momento presente, o que vai de encontro à outra grande influência de Kaprow - a filosofia de John Dewey.

Testemonials, 1976

A traça uma linha no solo

(com a ponta do sapato)
de um comprimento considerável.

B, seguindo-o, “achata” o sulco.

A às vezes se pergunta se o sulco é profundo o suficiente
B, ocasionalmente, pergunta-se se foi suficientemente achatado.

A imprimindo nas costas de B
um traço com os dedos
B então pergunta se o traço desapareceu
Continua a perguntar até que A diz que sim

B “pontilha” as costas de A
com as pontas dos dedos molhadas
Assoprando cada pontinho molhado,
pergunta a A está seco.
Só para quando A diz que sim.

A deixando uma série de pegadas no negativo
(espalhando pó branco em torno do sapato)
por uma longa distãncia.
B, depois, segue as trilhas
apagando cada pegada
até que o caminho desapareça.


Fall, 1995

2 amigos caminham pelas ruas

enchem um saco de folhas

quando o saco está cheio, continuam a caminhar,
1 amigo tem os olhos fechados
é guiado pelo outro,
deixa cair uma folha e, em seguida, outra,
até que o saco fica vazio

abre os olhos,
o outro amigo fechou os olhos,
é guiado, como antes,
segue as folhas, uma a uma
de volta ao ponto de partida

E por falar em Nathalie Quintane...


Um trechinho de Crise 2/ - Força!, do livro Começo [autobiografia]. A leitura é da maravilhosa Vanessa Medeiros, atriz paulistana.

sábado, 5 de setembro de 2009

Meus livros favoritos: Começo [autobiografia], de Nathalie Quintane.


"Eu me chamo Nathalie Quintane / Hello my name is Na-tha-lie-quin-ta-ne / eu nasci em 8-03-1964 / I was born in 1964 in Paris, France / moro em Digne-les-Bains / I live in the south near the Côte d'Azur / eu escrevo apenas frases simples / my style is simple, but sometimes complicated / publiquei meus primeiros textos em revistas / I published my poems in avant-gardists, or less avant-gardists, reviews / faço leituras em voz alta em bibliotecas ou salas públicas/ I can read on my lips or in my head if you want. "

"Eu me chamo novamente Nathalie Quintane. Eu não mudei de data de nascimento. Morei sempre no mesmo endereço. Sou um pouco excessiva, mas sou decidida.”


Nathalie Quintane

Começo [autobiografia]” é o primeiro livro da escritora e performer francesa Nathalie Quintane publicado no Brasil. Publicado pela editora Cosac e Naify em 2004, mesmo ano do lançamento da sua versão original em língua francesa, tem cuidadosa tradução da poeta e professora da Universidade Federal Fluminense Paula Glenadel.

A escrita de Quintane é bastante peculiar. Numa folheada rápida das páginas do livro já percebemos que não se trata de uma obra conservadora: frases curtas e rimas entrelaçadas misturam-se com grandes blocos de texto, por vezes não pontuado; uma pequena narrativa segue-se por uma palavra que, em negrito e fonte imensa, ocupa sozinha duas páginas. É um texto híbrido de gêneros textuais: poesia em prosa, prosa em poema, poesia visual, tudo se entrelaçando para nos contar a história da juventude da autora.

Essa hibridização, aqui, é um recurso usado para imprimir à leitura um ritmo de palavra falada, e mais ainda, de palavra vivida, dotando o texto de uma forte presença do autor. As rupturas proporcionadas pelo intercalar de gêneros, por serem operadas com tranquilidade e sem pretensão, revelam um fluxo de vida e pensamento e, assim, a escrita vai-se construindo frente ao leitor como se este fosse um ouvinte.

Acredito que essa característica deva-se em parte ao fato de a poeta atuar por entre os campos da performance e da poesia. Assim como na performance o corpo apresenta-se enquanto manifestação da subjetividade do performer em atividade no espaço-tempo real, na escrita a palavra em movimento coloca-se como representante de uma voz viva.


Nathalie Quintane

“Começo” compõe através de seus poemas uma narrativa: a autobiografia juvenil da autora, desde a infância até o ingresso no mercado de trabalho. A presença de elementos ordinários da existência cotidiana, como o cozinhar, o urinar e o fazer compras, mesclados a um alto nível de lirismo, dão o tom da poesia de Quintane, que revela-se uma vivente dedicada a encontrar belezas onde quer que els estejam.

Ao mesmo tempo, porém, essa “grandificação” das coisas ordinárias mostra ao leitor a pequenez de sua condição de humano:

Pequeno(a) 2. Eczema

Nos cotovelos, atrás dos joelhos, até às faces ascendendo, das minhas ancestrais à minha mãe via minhas avós e minhas tias.

“Entretanto, quando o ar volta, uma vez engolido o ovo, uma vez moída na garganta a cenoura, uma vez descida a fruta macia, uma vez a ervilha, pequena, chegada ao tórax imóvel, o gosto do ovo retorna, e dos outros, bastante poderosos para que seja preciso afogá-los em água.

Uma hora e mais o ovo fica.

A ironia é parte fundamental desse jogo entre o banal e o sofisticado. Para fundamentar a construção desse tom, Quintane utiliza-se do uso seqüencial de termos do cotidiano, acompanhados de expressões próprias à linguagem poética, construindo, dessa maneira, imagens que pendem entre o sublime e o grotesco:

“Abri a boca. A geléia já tinha embebido longamente o pão, tanto que ela não escorria mais em veios vermelhos, mas impregnava as bolas densas do miolo com manchas rosadas”.

Apesar do retrato do cotidiano e da apresentação do discurso como fala, o texto se afasta de um possível simplismo pelo trabalho com a língua e suas estruturas, em especial com jogos sintáxicos. Arrisco falar que Quintane cria imagens da línguagem, visto que seus jogos nos levam a debruçarmo-nos sobre nosso falar.

“Com doze anos a chamaram de Barjavel (ela lia Barjavel).

O cão do clube dos cinco se chama Dagoberto.

O colégio se chama Gustave Courbet ou Berthe Morisoth.

Como aprender o nome das plantas se não as reconhecemos nas fotos”.

Nessa passagem, a reflexão sobre a denominação das coisas que a cercam suscita no leitor a necessidade de olhar e enxergar os nomes, que não são coisas, e de olhar e enxergar as coisas, que não são nomes. Traz o abstrato e, então, a necessidade de concretizá-lo em algo que não é aquilo que ele nomeia. Traz, portanto, a necessidade de colocar-se frente às questões de linguagem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Chamada para o VI Festival de Apartamento.




Chamada para o
VI Festival de Apartamento
(Barão Geraldo/Campinas)
Performance Art


Os Apartment Festivals foram criados pelos neoistas nos anos 80 como uma forma de realizar eventos internacionais de Performance Art nas próprias moradias dos artistas, abrindo mão da necessidade de recorrer aos órgãos oficiais (HOME, Stewart. Assalto à Cultura, Conrad, 1999). Basicamente, para realizar um Festival basta um local, uma intenção e pessoas interessadas em apresentar e/ou assistir a performances.

Num processo de apropriação dessa prática, uma nova série de eventos performáticos tem sido realizada desde 2007, adaptando os Festivais de Apartamento de acordo com as necessidades de uma nova geração de artistas, ansiosos por espaços informais para apresentação de performances e intercâmbio de experiências: um misto de mostra e festa que se manifesta cada vez que alguém oferece uma residência para abriga-la.

A sexta edição do evento acontecerá em Barão Geraldo, Campinas/SP,
no dia 26 de Setembro de 2009, a partir das 20 horas.
(o endereço exato será divulgado após o fechamento da programação)

Os performers interessados em participar do festival devem preencher a ficha de inscrição e enviá-la, junto a uma imagem de divulgação, para os organizadores do evento através do e-mail:

festivaldeapartamento@gmail.com

Histórico dos eventos já realizados:

Organização

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Quase.

Esse barbudo aí é o Kaprow!


Dia 31/08/2009, às 10 da manhã, acontece a defesa da minha dissertação de mestrado, lá na Sala dos Professores do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes da UNICAMP (ufa!). Na banca, teremos a Profa Dra Paula Veermersch, do IFCH/UNICAMP e a Profa Dra Verônica Fabrini, do IA/UNICAMP, além do meu prezado orientador, Prof Dr Cassiano Sydow Quilici (!!)

"Allan Kaprow, performance e colaboração: estratégias para abraçar a vida como potência criativa". Esse é o nome da bichinha! Estão todos convidados, embora eu saiba que dia e horário são um pouco inconvenientes...


Trabalhando em São Carlos/SP


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Workshop performático "Performance Ready Made - Pequenas dramaturgias"
21/08/2009 às 15hs no DAC da UFSCAR.



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Oficina "Dramaturgias da Cena Contemporânea"
22/08/2009 às 10hs no Teatro de Bolso da UFSCAR.


*Agadecimentos à equipe da CEC/UFSCAR e à Anna Khul.