Foi preciso contar brevemente a história da Batalha do People’s Park e de sua “terça-feira sangrenta” antes de irmos aos Six Ordinary Happenings porque a forma desta proposta está diretamente ligada ao contexto violento em que esteve inserida. Nesse ambiente altamente politizado, as ações elaboradas por Kaprow para serem executadas por um grupo de voluntários podem parecer levianas ou inclusive irrelevantes. Entretanto, a ação deixar uma pilha de pratos em alguma esquina da cidade, fotografá-la, e retornar no dia seguinte para fotografar a mesma esquina - agora sem a pilha de pratos - transforma-se, na invisibilidade de sua realização, em uma contraposição extrema, uma alternativa às bombas de gás lacrimogêneo, às baionetas e ao sangue que se derramava pela cidade.
Doação
pilhas de pratos deixadas nas esquinas das ruas
fotografadas
dia seguinte, fotografado.
Em um momento em que até mesmo o movimento hippie levantava-se, gritava e envolvia-se na onda de agressividade, atirando tijolos contra os policiais, praticando e padecendo daquela batalha, Kaprow mostra verdadeiro engajamento em uma contracultura radical, atuando politicamente através de uma propo sta poética experimental, sem colocar as mãos em armas.
Forma
sapatos, corpos
nas ruas, calçadas, áreas
Spray pintando suas silhuetas
reportagens e fotos em jornal.
Adentrando o campo da poética kaprowniana, podemos observar que estes seis pequenos happenings pautam-se pela tentativa de introduzir atividades realmente cotidianas, que não se pareçam absolutamente com arte (ou, na terminologia que o autor apresenta em “A educação do an-artista”, não se pareçam com arte-arte), em um contexto que também não é artístico (pense que estamos em 1969, e a arte de guerrilha, os terrorismos poéticos e as intervenções são em muitos fatores filhos das experimentações deste período), tendo como foco elementar a vivência de uma experiência interessante por parte dos participantes.
Propósito
Fazendo uma montanha de areia
movendo-a repetidamente
até que não haja mais montanha
gravando os sons do trabalho
regravando-nos
até que nã o haja mais sons do trabalho
ouvir as fitas
Não podemos negar que Kaprow, como educador e leitor de John Dewey, ao planejar um happening acabava elaborando ações que proporcionassem vivências mais que simplesmente especiais, mas que de alguma maneira proporcionavam a construção de conhecimentos em torno do tema trabalhado. Ele declara numa entrevista realizada em 1968 que, como artista, estaria preocupado com a falta de objetivo dos happenings, porém como educador teria a clareza desse objetivo.
Caridade
Comprando pilhas de roupas velhas
Lavá-las em lavanderias 24 horas
Dando-lhes de volta à loja de roupas usadas.
Logo, a atuação política direta não está no centro da proposta, mas a possibilidade de uma vivência através da qual os participantes poderiam construir um saber acerca dos acontecimentos da Berkeley que encontravam ao sair para realizar suas ações traz um caráter de intervenção social à obra, que acaba por mostrar-se não-ordinária - exceto aos olhos do engajado militante.
Pose
Carregando cadeiras pela cidade
Sentando aqui e acolá
Fotografado
Fotos deixadas no local.
Continuando.
Muito bem!
Estacionando carros em zona proibida
Esperando por perto um policial
Foto instantânea do bilhete recebido
Relatório pormenorizado
Enviar fotos, relatórios e multas à polícia.
Como um bom exemplar da obra de Allan Kaprow, Six Ordinary Happenin gs nos mostra que atividades cotidianas, organizadas intencionalmente pelo artista, transformam-se na possibilidade de experiências extraordinárias.
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