quinta-feira, 8 de março de 2012

"Centro Metropolitano" - direção cênica e desenho de luz de Thaíse Nardim

Cena de "Centro Metropolitano"

“Centro Metropolitano” é um concerto encenado, fundado na relação entre a obra musical homônima e as imagens cênicas que ela suscita. O álbum “Centro Metropolitano”, de autoria do compositor e violonista Leonardo Luigi Perotto, foi lançado com a exibição do concerto no dia 21 de março de 2011 no teatro do Centro de Atividades do SESC Palmas, estado do TO.

A obra musical foi composta para a execução do Grupo Palmas Música, conjunto que reúne músicos da cidade de Palmas que têm na música de concerto sua principal forma de expressão artística. É formada por dez movimentos que buscam conduzir o ouvinte por diferentes experiências estéticas tendo por referência o homem contemporâneo e seu mundo em liquidez, inspirado pelas idéias de pensadores contemporâneos como Jean Baudrillard, Richard Sennett e Zygmunt Bauman. A obra apresenta elementos de música tonal, atonal e minimalista, além de recorrer a diferentes formações musicais criando constrastes tímbricos e texturas próprias para cada uma das passagens. Esta forma de engendrar, conduzir e interligar diferentes texturas propicia a narrativa de histórias subjetivas que fazem emergir imagens da vida cotidiana, de suas celeumas e de suas belezas.



A partir desses preceitos composicionais, a obra solicitou a configuração de uma performance camerística que adentrasse o universo da apresentação de música de câmara tradicional e a expandisse para um universo cênico performático e imagético. Esses elementos, assim como a inclusão de difusões sonoras, criam uma atmosfera que insere o espectador em um nível perceptivo extracotidiano, bem como no universo singular da própria composição.


A estreia de “Centro Metropolitano” foi acompanhada de uma exposição de artes visuais intitulada “Centro Metropolitano: outros olhares” produzida pelo artista plástico Cláudio Montanari, o fotógrafo Gustavo Sá e o art designer Roberto Giovannetti Pahim, que são também responsáveis pela identidade visual do cd. Foi realizada ainda, após uma das apresentações, uma ação performática intitulada “Gianini dont loves me” de autoria da performer e diretora cênica do projeto, Thaíse Nardim, que teve por inspiração a obra musical de Leonardo Luigi Perotto.

"Gianinni dont loves me"

O concerto encenado está imbuído de uma identidade multiartistica e plural, em que cada espectador pode construir experiências sensíveis particulares tendo por prumo a ideia dessa sociedade em que o homem fragmenta-se enquanto constrói-se no outro, tornando-se múltiplo e facetado. Onde as identidades diluem-se, misturam-se e transformam-se – uma espécie de antropofagia contemporânea, configurando outros sentidos e semeando novas ideias – uma metáfora para o verdadeiro motor da sociedade atual.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Rothko

Primeira exposição de Rothko, na Withechapel Gallery (UK), em 1961. Fotografia de Sandra Lousada. Fonte.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mimesis

Porque às vezes é preciso bem pouco.








Da série Mimesis, de Bárbara e Michael Leisgen - 1973.
Mais informações aqui.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Como se aprende em exposições de arte?


No vídeo "Como se aprende em exposições de arte", a professora Jaqueline Jacques da Costa nos mostra como planejar e executar com eficiência a visita à uma exposição de arte por uma turma de jovens estudantes, fazendo deste "passeio" uma possibilidade real de experiência e aprendizagem. Análises de especialistas e acadêmicos da área de arte/educação nos auxiliam a visualizar esse processo com clareza e compreender porque trata-se de uma experiência exemplar.

Jaqueline leva a 8ª série da Escola Estadual Anna Teixeira Prado Zacharias, em São Paulo, para uma visita à 29ª Bienal. Ela organiza os tempos de aprendizagem, prepara os alunos antes da ida à mostra, acompanha a visita, traça estratégias com o arte/educador da Bienal e propõe a realização de um debate com a turma após a realização do evento, retomando todas as etapas, trazendo para a sala de aula a experiência sensível e intelectual de seus alunos no confronto com as obras.

Podemos observar através desses diferentes momentos a educadora lançando mão de recursos oriundos das teorias contemporâneas de leitura de imagens e da cultura visual -  como o Image Watching de Robert Ott, para citar um exemplo - além de incentivar uma série de práticas indispensáveis ao currículo de um curso de Artes Visuais no contexto do Ensino Fundamental contemporâneo - mesmo tomando em conta as muitas orientações teóricas passíveis de filiação por um Projeto Pedagógico.

Meia dúzia de acontecimentos ordinários - Parte II





Foi preciso contar brevemente a história da Batalha do People’s Park e de sua “terça-feira sangrenta” antes de irmos aos Six Ordinary Happenings porque a forma desta proposta está diretamente ligada ao contexto violento em que esteve inserida. Nesse ambiente altamente politizado, as ações elaboradas por Kaprow para serem executadas por um grupo de voluntários podem parecer levianas ou inclusive irrelevantes. Entretanto, a ação deixar uma pilha de pratos em alguma esquina da cidade, fotografá-la, e retornar no dia seguinte para fotografar a mesma esquina - agora sem a pilha de pratos - transforma-se, na invisibilidade de sua realização, em uma contraposição extrema, uma alternativa às bombas de gás lacrimogêneo, às baionetas e ao sangue que se derramava pela cidade.



Doação

pilhas de pratos deixadas nas esquinas das ruas
fotografadas

dia seguinte, fotografado.


Em um momento em que até mesmo o movimento hippie levantava-se, gritava e envolvia-se na onda de agressividade, atirando tijolos contra os policiais, praticando e padecendo daquela batalha, Kaprow mostra verdadeiro engajamento em uma contracultura radical, atuando politicamente através de uma propo sta poética experimental, sem colocar as mãos em armas.




Forma


sapatos, corpos
nas ruas, calçadas, áreas
Spray pintando suas silhuetas
reportagens e fotos em jornal.


Adentrando o campo da poética kaprowniana, podemos observar que estes seis pequenos happenings pautam-se pela tentativa de introduzir atividades realmente cotidianas, que não se pareçam absolutamente com arte (ou, na terminologia que o autor apresenta em “A educação do an-artista”, não se pareçam com arte-arte), em um contexto que também não é artístico (pense que estamos em 1969, e a arte de guerrilha, os terrorismos poéticos e as intervenções são em muitos fatores filhos das experimentações deste período), tendo como foco elementar a vivência de uma experiência interessante por parte dos participantes.

Propósito

Fazendo uma montanha de areia
movendo-a repetidamente
até que não haja mais montanha
gravando os sons do trabalho
regravando-nos
até que nã o haja mais sons do trabalho
ouvir as fitas


Não podemos negar que Kaprow, como educador e leitor de John Dewey, ao planejar um happening acabava elaborando ações que proporcionassem vivências mais que simplesmente especiais, mas que de alguma maneira proporcionavam a construção de conhecimentos em torno do tema trabalhado. Ele declara numa entrevista realizada em 1968 que, como artista, estaria preocupado com a falta de objetivo dos happenings, porém como educador teria a clareza desse objetivo.



Caridade

Comprando pilhas de roupas velhas
Lavá-las em lavanderias 24 horas

Dando-lhes de volta à loja de roupas usadas.


Logo, a atuação política direta não está no centro da proposta, mas a possibilidade de uma vivência através da qual os participantes poderiam construir um saber acerca dos acontecimentos da Berkeley que encontravam ao sair para realizar suas ações traz um caráter de intervenção social à obra, que acaba por mostrar-se não-ordinária - exceto aos olhos do engajado militante.

Pose

Carregando cadeiras pela cidade
Sentando aqui e acolá
Fotografado
Fotos deixadas no local.
Continuando.


Muito bem!

Estacionando carros em zona proibida
Esperando por perto um policial
Foto instantânea do bilhete recebido
Relatório pormenorizado
Enviar fotos, relatórios e multas à polícia.


Como um bom exemplar da obra de Allan Kaprow, Six Ordinary Happenin gs nos mostra que atividades cotidianas, organizadas intencionalmente pelo artista, transformam-se na possibilidade de experiências extraordinárias.



Clique sobre as imagens para vê-las em tamanho grande.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Tucunaré do conhecimento: notas sobre EAD e Ensino Presencial.



Eita peixão bravo!

Um de meus interesses mais recentes tem sido a Educação à Distância, popularmente tratada pela sigla EAD. No início desse ano, ingressei no curso de Licenciatura em Artes Visuais oferecido pela Universidade Aberta do Brasil (UAB) em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Meu intuito era me aproximar da área de educação e conquistar o grau da Licenciatura – pois sou “apenas” bacharela, ainda. Optei pelas Artes Visuais pela proximidade que meu trabalho performático vem tendo com essa área – além do que, imaginem só estudar tantas coisinhas de teatro de novo, visto que o aproveitamento de disciplinas não é tão facilmente conquistado...

Enfim, estou lá eu, discente da Licenciatura. A priori, discente descrente, conforme o senso-comum em nosso país, da verdadeira capacidade formativa dos processos de EAD. Alguns amigos, com orientações políticas mais voltadas à “antiga esquerda”, criticavam meu ingresso nesse universo e me diziam que a Educação à Distância viera para esculhambar definitivamente o coreto de nossa educação de nível superior.

(Pela ótica dos mesmos colegas, eu seria uma dupla-criminosa: partidária da Educação à Distância e ainda professora de um curso do REUNI!).

Enfim, esculhambar por que? Oras, diz meu amigo, se você solicita a um aluno que leia um texto para a discussão em sala de aula e esse aluno, quando lê o texto, em geral não possui as competências elementares para interpretá-lo – de modo que é o que pode acabar-se fazendo por ele (considerando que isso seja possível) em sala - como pode-se acreditar que o mesmo aluno vá aprender algo prescindindo da segunda parte desse processo?

Elementar, meu caro Fulano. Eis aí a comparação irrealizável. O embate impossível. Como diria o bom e velho tiozinho da padaria: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
A Educação à Distância não pretende superar ou substituir o ensino presencial - a primeira não quer nem vai “acabar” com o segundo. Lembremos agora “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e a relação fotografia-pintura/cinema-teatro: a fotografia não matou a pintura, muito pelo contrário: ampliou seus horizontes, abriu-lhe novos caminhos e inclusive possibilitou-lhe que corresse atrás daquilo que lhe era mais fundamental e peculiar, essencial. Vamos explicitar isso ainda mais através da relação cinema-teatro: na medida em que a câmera possibilita grande fidelidade ao tempo e espaço de um acontecimento, possibilita também ao teatro que se debruce sobre sua questão mais peculiar, mais íntima, mais própria: o compartilhamento de presença. Ok, demorou horrores pra isso começar a acontecer, mas estamos aí.

Por isso, acredito na Educação à Distância como um “momento” de pararmos e olharmos para a Educação, “e” maiúsculo, em geral. Em suas propostas metodológicas, em seus fundamentos conceituais, no deslocamento do foco do professor-mestre-detentor-do-saber (que está aí SIM, no ensino Básico como no Superior, e reforça a cada dia o hábito do depositarismo, tanto por parte do docente quanto do discente) para o aluno colaborador, pró-ativo (primeira vez na vida que uso essa palavra e não a acho nojenta), que compartilha saberes (como faz todo dia pelo facebook) e opera pela construção de conhecimentos coletivamente, auxiliado por um mediador que trabalha o tempo todo para que ele possa vir a construir essa autonomia.

Voltando ao caso do amigo Fulano: em EAD, o aluno que não lê o texto, não vê a matéria. Não pode realizar nenhuma atividade. Ele não tem a possibilidade de sentar-se na sala de aula e ouvir o que o professor-mestre-detentor-do-saber tem a dizer sobre aquilo, ou de acompanhar, como ouvinte, o debate promovido pelos seus colegas que leram o texto. Do outro lado da tela, em algum lugar do mundo, há um tutor olhando por ele e bolando estratégias para que possa compreender à sua maneira o conteúdo. O aluno que não leu o texto não será avaliado por aquele módulo, e não poderá “passar de ano” escrevendo, ao fim do semestre, um texto sobre o único texto que ele leu.

Ok, eu forcei a barra no “case” acima pra podermos entender um pouquinho mais sobre a EAD.

O fato é que esse primeiro contato, como discente, com EAD me fez repensar radicalmente a minha atividade como professora das salas de aula presenciais. Quantas vezes, ou, em determinada vez em que intensidade não trabalhei de fato para que os alunos construíssem seu conhecimento, e apenas dei-lhes um anzolzinho, uma minhoca e falei: tá ali o Rio Tocantins, bem. Agora você bota essa minhoca nesse anzol, joga lá e espera, bem quietinho. O habilidoso jogou no google, descobriu o melhor horário para a prática da pesca daquele peixe que seria o mais provável de se pescar tendo minhocas como isca ou, ainda, querendo pescar um Tucunaré, pesquisou a melhor forma de fazê-lo. O esforçado penou um pouco, mas logo também se lembrou do oráculo, ou se lembrou de repente de que tinha um vizinho pescador, deu uma consultada, conseguiu conquistar seu lambarizinho, com a sua minhoquinha mesmo. E o terceiro? O terceiro torrou o côco no sol de Palmas, até sua minhoca ficar esturricada e sua paciência e auto-estima tão desidratadas quanto o resto do seu corpo. Culpa dele, o loser?



Manuais? Não, não existem manuais quando se trata de pessoas ensinando/aprendendo.

Culpa minha? Culpa do sistema? O que não podemos negar é que os alunos nos chegam a cada dia mais tendendo à morte por inanição no barranco da beira do rio. O que faremos? Faremos tudo por eles (dando o peixe)? Ou vamos fingir que não é com a gente, não vamos “abaixar o nível” de nossas aulas e vamos continuar vendo 5, 6 alunos entre 80 (é, uma sala de REUNI por aqui tem 80 alunos) voltando pra sala com seus peixes.

Se existe mesmo, conforme a minha tese, algo que o ensino presencial pode aprender com a EAD, esse algo são boas e novas maneiras de ensinar a pescar – ou, melhor ainda, de auxiliar nosso alunado a encontrar os caminhos para fisgar o peixe que ele tanto deseja.

Deseja? Não, ele não deseja! Ele não quer peixe nenhum! Tem peixe pra comprar no Extra, tia! Eu gosto de carne vermelha, de churrasco! Tem peiche* (sic) fresco no Google, pescar pra quê? (Essa me lembrou essa música aqui).

Resgatando, então: auxiliar os alunos a desejarem o peixe e, em desejando-o, orientá-los a descobrir como fisgar o bichinho. Como aluna de um curso em EAD, olho para as atividades (numerosas, e extensivas!) que tenho realizado dentro das disciplinas e é isso o que vejo. É o que busco, hoje, levar para a minha sala de aula.